há qualquer coisa de doce,
qualquer coisa de susto,
coisa de desatento.
Surpreso, suspiro.
há qualquer coisa de doce,
qualquer coisa de susto,
coisa de desatento.
Surpreso, suspiro.
Esquina
Duas horas da madrugada:
Dois adolescentes sentados inquietos no cruzamento de uma rua central. Parece música o silêncio neste ponto da cidade. (Só agora algo de tranqüilidade). Poucos carros passam. A viatura da policia não cruza a rua. A poucos metros o movimento nos bares: putas nos balcões, bêbados puxando papo, alguns distintos bebendo cerveja ou uma dose. Alguns metros dali: putas e travestis se exibem para os carros, esperando por trabalho. No geral, os travestis possuem corpos mais atraentes e, talvez por essa razão, mais requisitados. No entre cenas: outros sentados nas marquises, procurando no chão um pensamento paranóico escondido dentro da cabeça, beijando alguma lata amassada, consumindo alguns instantes.
...
_ Minha vez, minha vez, mmeee dddÁ! com olhos famintos, mãos suplicantes e coração palpitante, ele exige.
_ TOMÁ NO CÚ PORRA! Só mais uma. com o bico da boca, a mão da lata e o isqueiro do dedo, estanques e ofegantes.
...
Situar-nos-emos neste conto:
A cidade é Curitiba.
A esquina das ruas Presidente Farias e São Francisco.
O dia é os dias.
...
No outro dia, pela manhã: duas amigas, tênis ALL STAR, calças da rede de educação estadual, cabelos tinto-vermelhos em uma e n´outra tinto-amarelados com pontas pretas. Uma de jaqueta preta e a outra em blusa de lã listrada verde-vermelho. O sol de céu azul: 8ºC. Num banco, entre o Teatro e a Universidade Federal do Paraná: praça Santos Andrade.
N´outro banco, há oito anos em Curitiba, vindo de São Paulo pensando em qualidade de vida e emprego, um morador de rua. Carlos, 55, dorme nas marquises no entorno da praça. Percebe as amigas e pensa nas besteiras de jovens... aii, meu papai vai me dar um presente por que passei na faculdade..aii, não sei o que eu quero... aii guria, será que eu pego um carro ou uma viagem pros Estados Unidos? Enquanto pensa repara que Vivian esfrega freneticamente a mão direita na calça jeans. Peladinha, de quatro, uma bucetinha rosadinha, lamberia ela inteira. Em baixo daquela blusinha, aquele biquinho rosadinho...
Vivian – Guria, tô afim de fumar uma hoje.
Carla – Vai ué!
Vivian – Ai, credo!
Carla – Ai meu, você num para mais. Todo dia! Num tô afim.
Vivian – Tá bom! Só perguntei. éé, acho que vô dá um tempo também. beija pode pelo menos?
...
Madrugada fria. Ao lado da catedral, marco inicial da cidade, um carrinho de cachorro-quente: um casal de mulheres aguarda o lanche enquanto conversam sobre os acontecimentos da noite. Chega um grupo de três amigos, pedem seus lanches e ficam a aguardar, enquanto um senhor de pé ao lado deles come um cachorro-quente. Do outro lado da rua, na praça Tiradentes, o movimento é quase nulo. Algumas pessoas passam apressadas, indo para casa ou à procura de um lugar quente... poucos carros.
...
_ Me dá a bolsa, me dá a bolsa... com uma ponta do pedaço de caco de vidro encostado na garganta dela, colocado por entre uma pequena brecha no vidro do motorista aberto, ele insiste... ME DÁ A BOLSA PORRA!
Daniela hesita por um momento, com o baseado na mão direita, mas não reage. Na madrugada, esquina da praça Tiradentes, apenas entrega a bolsa. Enquanto vê aquela criança desaparecendo em instantes pensa nos R$20,75 que estavam na bolsa de R$70,00 e no celular de R$700,00 que ainda paga, mas que por sorte, poucos minutos antes havia atendido e deixado em cima do banco de passageiro. Não pensa com pesar, apenas pensa, pois aquele pequeno estado de choque, dado que o trauma não foi tão grande, a deixa apenas pensar, sem refletir e sem lamentar-se.
Lenor corre, mas não muito. Logo, atrás da catedral, está tranqüilo. Olha ofegante com olhos-coruja para a bolsa e lados. Porcarias. Na carteira vinte reais e algumas moedas. Joga a carteira e deixa a bolsa ali.
Jorge chega rápido ofegantes olhos-coruja, sem dizer uma única palavra. Apenas acompanha Lenor, com um ar de desespero e euforia, olhando para os lados freneticamente mordendo a manga da blusa.
Andam alguns metros.
Outro olhos-coruja, olhando para os lados, levantando as calças caindo, chinelo de dedo, blusa vermelha surrada suja chega e pergunta “Quanto?”.
Lenor, com as pedras na mão, saí com Jorge a tiracolo.
Andam pelos becos centrais até chegarem a um lugar que acreditam que não serão importunados. Param mais pela vontade que pela segurança. Jorge com a lata amassada na mão, que entrega para Lenor, que fuma o cigarro... olham para os lados, numa mistura de pavor ansiedade desespero prazer vontade. Lenor faz o buraco na lata, coloca a cinza do cigarro, deposita a pedra e...
Andando olhando buscando alguém ou algo. No chão uma procura no olho a mistura entre medo em ansiedade. A mão na bolsa da jaqueta aperta dez reais. Na esquina outro olhos-coruja, olhando para os lados, levantando as calças caindo, chinelo de dedo, blusa vermelha surrada suja chega e pergunta “Quanto?” e ela compra sua procura. Eles somente mudam a esquina e o rosto, mas as outras características físicas o crack democratiza, tornando todos iguais.