sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Primavera

Pois Princesa
a vida é mais singela
sem coroa a sua
roda apertada
tem toda frouxa
sua rosa roxa
suave o seu perfume
de estrume em sua coroa

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

o vento

vem tonto
vem tornando
ventarolas
todo zonzo

Ponto de apoio

Às vezes a gente se rende

Rendido, a gente se entrega

Entregue, a gente se arqueja

Arquejado, a gente peleja

Pelejando, nos esquecemos

Esquecidos, nos rendemos.

domingo, 12 de setembro de 2010

notivago

apenas palavras madrugadas no silêncio
sem sons ou rimas
intercalam o vagar

sábado, 28 de agosto de 2010

Impossibilidades(O Fardo da Ilusão)

O que vê e o que sente
meu amigo
amigo meu
são - impossibilidades

de dor
angustia
tristeza
e amor

Tudo num mesmo saco
não há gato
não há balaio

a tristeza e a dor
vem de dentro:
busca de angustia do amor.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Bocejo

Meu marco inicial de vida todos os dias é abrir os olhos. Meu marco inicial de realidade é as pessoas que vejo ontem e são as mesmas hoje. Meu abrir de olhos pela manhã é penumbra que dissipa a nevoa do sono, com um raio de claridade, suco de ar em meio ao mormaço.

Todas as manhãs sentar na cama. Todas as manhãs descobrir meu corpo no cobertor, esquecer que a virilha está ali logo cedo, que meu umbigo coberto acorda, que minha nuca deixada pra trás se apresenta. Todas as manhãs me descubro corpo, enquanto a alma do sonho repousa

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Vazio

Há um pra-n-to posto
de mentira está servido

Há um prato pronto
a mentira está servindo

Há fome
eu como

À sede
eu brindo

um copo sincero

vazio

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Bonsai


Qua-
se rosa branca
chocolate jas-
min
perfume doce

Pequeno, como
brota

jas-
min, na morte

trans-
figura ouro.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Junte-se a eles


Lia tranquilo no meu assento do ônibus, depois de alguns momentos na fila de pé e aquela apreensão de conseguir um banco para sentar. Passei pela zona de risco, umas 20 pessoas na minha frente. Consegui sentar no penúltimo lugar. Eram os louros da vitória que eu colhia, tudo na paz.

Então o sujeito chega, para de pé nas minhas costas, no corredor, e começa a conversar com duas moças no banco de trás. Tudo ótimo ainda, estou sentado e com um pouco de relutância posso me concentrar o suficiente para não ouvir a voz do individuo. Pois, não feliz, chamou pelo amigo que estava na parte dianteira do ônibus. O tom da voz fica mais alto, afinal são dois homens e duas mulheres... é necessário se sobressair.

Não contente em falar no meu ouvido naquela altura o amigo ainda fica se esfregando em mim. Não, a porcaria do ônibus não estava lotado. Mas como sou um rapaz educado, resolvi fechar o livro e ouvir(se não pode com eles). Até porque já me rendeu bons textos prestar atenção no papo alheio. Mas nem isso... só essas linhas indignadas.

Pra não ficar curioso, digo sobre o que versava o papo. Um recuperado pelos céus. O sujeito não se continha com sua salvação. Era preciso que todos nós que rumávamos pra casa naquela quinta-feira, às 22h40, soubéssemos que ele havia passado pela maconha, pela cocaína, pelo crack e estava ali para contar a história. Glória! Pena ele me obrigar a consumir a droga da história dele.

Pena de vocês que acabam de consumir essa droga de texto. Mas agora que já passou, vocês podem fazer o mesmo por outras pessoas. Pensem que se elas não passarem por isso, não saberão a benção que é sair dessa.

Amém!

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Curitiba


Tudo aqui é tão chic
Tudo aqui é tão kitsch

tudo tão clichê

terça-feira, 27 de abril de 2010

A boca aberta:


há qualquer coisa de doce,

qualquer coisa de susto,

coisa de desatento.


Surpreso, suspiro.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Paixões de rua



Esquina

Duas horas da madrugada:

Dois adolescentes sentados inquietos no cruzamento de uma rua central. Parece música o silêncio neste ponto da cidade. (Só agora algo de tranqüilidade). Poucos carros passam. A viatura da policia não cruza a rua. A poucos metros o movimento nos bares: putas nos balcões, bêbados puxando papo, alguns distintos bebendo cerveja ou uma dose. Alguns metros dali: putas e travestis se exibem para os carros, esperando por trabalho. No geral, os travestis possuem corpos mais atraentes e, talvez por essa razão, mais requisitados. No entre cenas: outros sentados nas marquises, procurando no chão um pensamento paranóico escondido dentro da cabeça, beijando alguma lata amassada, consumindo alguns instantes.

...

_ Minha vez, minha vez, mmeee dddÁ! com olhos famintos, mãos suplicantes e coração palpitante, ele exige.

_ TOMÁ NO CÚ PORRA! Só mais uma. com o bico da boca, a mão da lata e o isqueiro do dedo, estanques e ofegantes.

...

Situar-nos-emos neste conto:

A cidade é Curitiba.

A esquina das ruas Presidente Farias e São Francisco.

O dia é os dias.

...

No outro dia, pela manhã: duas amigas, tênis ALL STAR, calças da rede de educação estadual, cabelos tinto-vermelhos em uma e n´outra tinto-amarelados com pontas pretas. Uma de jaqueta preta e a outra em blusa de lã listrada verde-vermelho. O sol de céu azul: 8ºC. Num banco, entre o Teatro e a Universidade Federal do Paraná: praça Santos Andrade.

N´outro banco, há oito anos em Curitiba, vindo de São Paulo pensando em qualidade de vida e emprego, um morador de rua. Carlos, 55, dorme nas marquises no entorno da praça. Percebe as amigas e pensa nas besteiras de jovens... aii, meu papai vai me dar um presente por que passei na faculdade..aii, não sei o que eu quero... aii guria, será que eu pego um carro ou uma viagem pros Estados Unidos? Enquanto pensa repara que Vivian esfrega freneticamente a mão direita na calça jeans. Peladinha, de quatro, uma bucetinha rosadinha, lamberia ela inteira. Em baixo daquela blusinha, aquele biquinho rosadinho...

Vivian – Guria, tô afim de fumar uma hoje.

Carla – Vai ué!

Vivian – Ai, credo!

Carla – Ai meu, você num para mais. Todo dia! Num tô afim.

Vivian – Tá bom! Só perguntei. éé, acho que vô dá um tempo também. beija pode pelo menos?

...

Madrugada fria. Ao lado da catedral, marco inicial da cidade, um carrinho de cachorro-quente: um casal de mulheres aguarda o lanche enquanto conversam sobre os acontecimentos da noite. Chega um grupo de três amigos, pedem seus lanches e ficam a aguardar, enquanto um senhor de pé ao lado deles come um cachorro-quente. Do outro lado da rua, na praça Tiradentes, o movimento é quase nulo. Algumas pessoas passam apressadas, indo para casa ou à procura de um lugar quente... poucos carros.

...

_ Me dá a bolsa, me dá a bolsa... com uma ponta do pedaço de caco de vidro encostado na garganta dela, colocado por entre uma pequena brecha no vidro do motorista aberto, ele insiste... ME DÁ A BOLSA PORRA!

Daniela hesita por um momento, com o baseado na mão direita, mas não reage. Na madrugada, esquina da praça Tiradentes, apenas entrega a bolsa. Enquanto vê aquela criança desaparecendo em instantes pensa nos R$20,75 que estavam na bolsa de R$70,00 e no celular de R$700,00 que ainda paga, mas que por sorte, poucos minutos antes havia atendido e deixado em cima do banco de passageiro. Não pensa com pesar, apenas pensa, pois aquele pequeno estado de choque, dado que o trauma não foi tão grande, a deixa apenas pensar, sem refletir e sem lamentar-se.

Lenor corre, mas não muito. Logo, atrás da catedral, está tranqüilo. Olha ofegante com olhos-coruja para a bolsa e lados. Porcarias. Na carteira vinte reais e algumas moedas. Joga a carteira e deixa a bolsa ali.

Jorge chega rápido ofegantes olhos-coruja, sem dizer uma única palavra. Apenas acompanha Lenor, com um ar de desespero e euforia, olhando para os lados freneticamente mordendo a manga da blusa.

Andam alguns metros.

Outro olhos-coruja, olhando para os lados, levantando as calças caindo, chinelo de dedo, blusa vermelha surrada suja chega e pergunta “Quanto?”.

Lenor, com as pedras na mão, saí com Jorge a tiracolo.

Andam pelos becos centrais até chegarem a um lugar que acreditam que não serão importunados. Param mais pela vontade que pela segurança. Jorge com a lata amassada na mão, que entrega para Lenor, que fuma o cigarro... olham para os lados, numa mistura de pavor ansiedade desespero prazer vontade. Lenor faz o buraco na lata, coloca a cinza do cigarro, deposita a pedra e...

Andando olhando buscando alguém ou algo. No chão uma procura no olho a mistura entre medo em ansiedade. A mão na bolsa da jaqueta aperta dez reais. Na esquina outro olhos-coruja, olhando para os lados, levantando as calças caindo, chinelo de dedo, blusa vermelha surrada suja chega e pergunta “Quanto?” e ela compra sua procura. Eles somente mudam a esquina e o rosto, mas as outras características físicas o crack democratiza, tornando todos iguais.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Nascer aqui Crescer Morrer aqui


E
le ainda não pensava, não sabia, mas havia uma consciência de vida que lhe desenhava o destino. As impressões pós-útero eram demasiado intensas, sem a mediação do entendimento, do conhecimento e da cognição formada. Sobretudo, as primeiras impressões não possuíam a mediação cultural. Os sonhos, como nos animais, organizavam a vida em correlações energéticas que ditavam um fluxo quase caótico. Era o sopro da vida, por meio do qual todos os seres são conscientes do mundo.

Os olhos ainda não viam, apenas olhavam. Olhar ireflexo, sem refluxo de pensamentos. Sensação tão crua como tocar o fogo, porém, não chegando a manifestar-se ainda como sensação. Como o verbo que desconhece a adjetivação, havia o sentir, mas não o sentido.Infelizmente, para os olhos que lêem não é possível similar sensação.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

simsei


Sim sinto

Só sinto

Só minto

Sem sinto

Me sinto

semsei

Labels