Só a monstra do convívio
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by marcelo marzola leite
recomendo Cesário Verde. Alguns trechos de "O Sentimento Dum Ocidental"*:
" ...
......Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!
...
......
......O teto fundo de oxigênio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.
......Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes , às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-se, sangrentos.
...
......Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.
...
......E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!
......................................................1880"
* CESÁRIO VERDE. Seleção: Leyla Perrone-Moisés. "Coleção Melhores Poemas". Global Editora (São Paulo, 2005).
" ...
......Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!
...
......
......O teto fundo de oxigênio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.
......Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes , às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-se, sangrentos.
...
......Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.
...
......E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!
......................................................1880"
* CESÁRIO VERDE. Seleção: Leyla Perrone-Moisés. "Coleção Melhores Poemas". Global Editora (São Paulo, 2005).
Praçar
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by marcelo marzola leite
Uma praça é andar sem precisar desviar de alguma parede. Os muros são prédios e casas e comércios e bares e igrejas e prisões e museus e cafés e teatros e cinemas e shoppings e... Um lugar aberto, com grama ou concreto somente para os pés. O limite é o chão, não podando o movimento.
Espaço com bancos aqui e acolá com velhinhos apossentados simpáticos ou ranzinzas com pombas sob os pés comendo algo deixando pulgas com ratos correndo medrosos com estatuas de dorsos flutuantes com chafariz jorrando água constantemente, ou não.
Nos bairros elas são motivo de diversão para crianças e distração para adultos. O espaço os brinquedos a grama as árvores: sinônimos do lazer. Para os cães estes locais públicos significam alívio da claustrofobia. Lá não há quintais e cômodos limitando as corridas. São alívio para as necessidades fisiológicas do melhor amigo do homem.Circular, quadrada, entrecortada ou ladeada por caminhos que rodeiam seu centro contornando jardins. Na praça podemos ficar a esperar alguém, olhando e pensando em como a vida fora dos seus limites corre em ritmo alucinado. Alguns corpos tentados pelo caminho mais curto atravessam-na com uma passada estranha aos que tem seu ponto final ou de partida ali. Esse recorte de pessoas que passam acontece todo tempo.
Espaço com bancos aqui e acolá com velhinhos apossentados simpáticos ou ranzinzas com pombas sob os pés comendo algo deixando pulgas com ratos correndo medrosos com estatuas de dorsos flutuantes com chafariz jorrando água constantemente, ou não.
Nos bairros elas são motivo de diversão para crianças e distração para adultos. O espaço os brinquedos a grama as árvores: sinônimos do lazer. Para os cães estes locais públicos significam alívio da claustrofobia. Lá não há quintais e cômodos limitando as corridas. São alívio para as necessidades fisiológicas do melhor amigo do homem.Circular, quadrada, entrecortada ou ladeada por caminhos que rodeiam seu centro contornando jardins. Na praça podemos ficar a esperar alguém, olhando e pensando em como a vida fora dos seus limites corre em ritmo alucinado. Alguns corpos tentados pelo caminho mais curto atravessam-na com uma passada estranha aos que tem seu ponto final ou de partida ali. Esse recorte de pessoas que passam acontece todo tempo.
ÀS 19 HORAS
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by marcelo marzola leite
Praça do homem nu: e
........................mulher de dorso petrificado,
praça dos desavisados: desanuviados com o mundo, enquanto
........................uma mulher passa gritando “JUSTIÇA!”, assim
........................sem mais nem menos, um grito seco, e
um grupo, desabrigados, pilhéria com o companheiro bêbadocaído no centro da praça,
........................enquanto falta de emprego desespera mãe sentada no banco,
jogam água “acorda vagabundo, vai rouba osotro!” e
...............................................................................ao lado, no shopping,
.........................as mulheres olham como quem olha peixe,
................................................................................feixes feitos fetiches.
........................mulher de dorso petrificado,
praça dos desavisados: desanuviados com o mundo, enquanto
........................uma mulher passa gritando “JUSTIÇA!”, assim
........................sem mais nem menos, um grito seco, e
um grupo, desabrigados, pilhéria com o companheiro bêbadocaído no centro da praça,
........................enquanto falta de emprego desespera mãe sentada no banco,
jogam água “acorda vagabundo, vai rouba osotro!” e
...............................................................................ao lado, no shopping,
.........................as mulheres olham como quem olha peixe,
................................................................................feixes feitos fetiches.
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